Assembleia de Freguesia - Sessão Ordinária 14 de dezembro
Categoria: Freguesia

Assembleia de Freguesia - Sessão Ordinária 14 de dezembro

ASSEMBLEIA DE FREGUESIA DE CAMPANHÃ
Concelho do Porto

EDITAL

SANDRA INÊS BRANDÃO DOS SANTOS PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA DE FREGUESIA DE CAMPANHÃ, CONCELHO DO PORTO:

FAZ PÚBLICO que, em conformidade com a competência que lhe confere a, Alínea b) do n.° 1 do Artigo 14°. da Lei 75/2013 de 12 de Setembro, a Assembleia de Freguesia de Campanhã vai realizar a Sessão Ordinária no próximo dia 14 de DEZEMBRO (Sexta-feira), com início às 21H30 no Auditório da Freguesia de Campanhã, sito à Rua Ferreira dos Santos, 57 com a seguinte ordem de trabalhos:

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Agenda

Jornal Público - O Porto “a seguir os tempos” de Campanhã ao centro histórico

Jornal Público
O Porto “a seguir os tempos” de Campanhã ao centro histórico
Artigo de Patrícia Carvalho, publicado a 5 de Março de 2018 - Ligação 
 
Muita coisa mudou no Porto em 28 anos, mas uns locais mudaram mais do que outros. O Bairro de S. João de Deus, em Campanhã, e o centro histórico, assistiram a algumas das maiores transformações. Para o bem e para o mal.
 
Maria Luciana Correia, 74 anos, repousa as mãos na mesa da sala da casa nova que lhe foi atribuída no Bairro de S. João de Deus, no Porto. Não está particularmente satisfeita, embora encolha os ombros e diga que “já se habituou”. Mas a mudança custou-lhe, confessa. “Chorei muito, só para aqui vim no próprio dia em que já ia ficar cá a dormir”, conta. O trajecto não foi longo. Luciana já era moradora do bairro em Campanhã, onde chegou há mais de 60 anos. E se a freguesia parece demorar a mudar, mesmo com a Câmara do Porto a elegê-la como uma das suas áreas privilegiadas de intervenção, o bairro mudou e muito.
 
Mudou tanto que quem lá chega hoje não faz ideia do que aqueles terrenos vazios foram. Só a memória de quem lá viveu e andou pode ajudar a explicar o que era aquele território abandonado da cidade, conhecido como “Tarrafal”. Luciana, curiosamente, ainda se lembra do S. João de Deus quase assim, semi-deserto, como está hoje. “Havia as casas mais antigas e o resto era só montes e a escola”, conta, repescando a lembrança do local onde chegou ainda criança. Também hoje, as encostas onde se erguiam os blocos de habitação construídos em três fases distintas, são apenas montes maltratados e abandonados, à espera de futuro. A parte mais antiga do bairro, a das casas unifamiliares, está, aos poucos, a ser transformada, com as habitações velhas a darem lugar às novas. Maria Luciana e a família mudaram-se em Julho, outros, como Madalena Pinto, 65 anos, nascida no S. João de Deus, ainda aguardam por uma casa nova nos contentores instalados nos terrenos do bairro para albergarem, temporariamente, os moradores.
 
O S. João de Deus parece suspenso no tempo, numa espécie de limbo em que ainda não é claro o que irá acontecer nos terrenos vazios dos blocos habitacionais que o então presidente da Câmara do Porto, Rui Rio, mandou arrasar. O bairro foi o cenário da primeira visita oficial que o recém-eleito autarca fez, em 2002. Rio foi recebido em festa, antes de se saber que o plano para ali era arrasar todos os prédios. Até mesmo os edifícios da última fase, construídos no âmbito do Comissariado da Luta Contra a Pobreza e que tinham ficado prontos apenas em finais dos anos 1990. Ernesto Santos, presidente da Junta de Freguesia de Campanhã e também ele nascido no Bairro de S. João de Deus, ainda hoje classifica essa intervenção autárquica como “um crime de lesa pátria”. Mesmo que o bairro onde nascera estivesse, então, transformado num local abandonado e dominado pelo tráfico de droga. "O que Rui Rio conseguiu foi espalhar o tráfico por outros bairros da cidade", argumenta.
 
Havia uma lixeira a céu aberto, carcaças de carros ao abandono, ligações pirata de água e electricidade, e o alcoolismo, a violência e o desemprego eram apontados como realidades comuns no bairro. A droga já por lá andava, pelo menos desde meados dos anos 80, mas ainda não era apontada como um problema maior do bairro – era a Sé, no centro histórico, que, então, concentrava as atenções nesse campo. “O bairro começou a degradar-se fortemente, primeiro com os barracos – construiu lá muita gente boa, muito séria e trabalhadora, mas também pessoas que viviam de esquemas. Quando estas pessoas se mudaram para as casas novas, em finais dos anos 90, sentiram mais segurança para os esquemas, e tudo piorou ainda mais”, conta Ernesto Santos.
 
Em 1990, o ano em que o PÚBLICO nasceu, o S. João de Deus já estava longe de ser o bairro pacífico e em que todos eram “como uma família”, de que Madalena se recorda. Uma reportagem publicada a 5 de Junho chamava-lhe “um gueto na cidade” e mostrava as barracas que, como cogumelos, tinham nascido nos espaços vazios, albergando gente que chegava de fora, mas sobretudo pessoas dali, que escapavam às casas sobrelotadas montando uma barraca nas imediações. Lado a lado viviam brancos, ciganos e uma pequena comunidade africana. Anunciava-se, então, o avanço da 3.ª fase de construção do bairro e lembrava-se que o nome “Tarrafal” surgira por ser para ali que, antes de 1974, eram enviados “os que se portavam mal” nos outros bairros camarários.
 
Foram os anos em que o bairro, à noite, não tinha luz exterior, em que as ruas perderam parte do asfalto e eram caminhos de terra, traçadas por água choca; os anos das rusgas da polícia e do descampado conhecido como “vale dos leprosos” onde os toxicodependentes morriam à vista de todos; aqueles em que a cidade se esqueceu do S. João de Deus e em que ninguém lá entrava a não ser que lá morasse, trabalhasse (a escola, por exemplo, continua a funcionar) ou estivesse ligado ao tráfico ou consumo de droga; os anos em que dar como morada o S. João de Deus era, quase inevitavelmente, recebido com um franzir de testa e portas fechadas a quem procurava um emprego.
 
Quem não estava ligado à criminalidade fechava-se em casa. Maria Luciana diz que nunca pensou sair dali, mesmo que se recorde de passar “muitas vezes pelo meio da polícia” a caminho do trabalho, ou do medo que sentia quando havia uma rusga ou voavam tiros pelo ar. “Vivíamos metidos em casa”, diz. Madalena, costureira, diz que se dava com toda a gente. Mas o filho “que andava sempre lá para cima [nos blocos habitacionais]” acabou por começar a consumir, ainda adolescente, e levou anos até deixar a droga, diz.
 
Hoje, tudo isto não passa de memórias. O que sobrou de bairro é um sossego. “Estamos no céu”, diz Maria Lucinda – não fossem as queixas da casa nova, onde cai água na cozinha e onde ninguém se parece ter lembrado que dava jeito colocar uma gaveta nos móveis desta divisão ou a renda que passou dos 27 euros para os 316, enquanto as cadeiras pesadas de uma mobília de sala, que já não couberam na casa nova, vão apanhando a chuva forte que cai no pátio da habitação. Para o futuro, agora, queria um espaço para os bisnetos brincarem. Já Ernesto Santos gostava mesmo que os terrenos vazios do S. João de Deus voltassem a encher-se de gente. “Se a câmara os cedesse a cooperativas capazes de levar para ali casais jovens era excelente. Mas se calhar sou um utópico”, diz.
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